segunda-feira, setembro 26, 2005

Desilusão obrigatória

Um dos graves erros da humanidade é a sacralização. Primeiramente, ao sacralizar uma pessoa, ou um conjunto delas, no coso dos partidos, você a isenta imbuidamente de uma das falhas mais naturais do ser humano: o erro. Ao creditar a integridade máxima a algo ou alguém, tornamo-los livre da dúvida, da falha, da imperfeição. Como isso é impossível de acontecer em qualquer instância da civilização, nasce a decepção, que pode nos levar desde a descrença às guerras.

Foi assim com Lula e o Partido dos Trabalhadores, por exemplo. É assim com a religião e nossos ídolos. Se fizermos o possível, para não sacralizar coisas e/ou pessoas seriamos mais compreensíveis aos atos falhos, aos desvios e aos escorregões da vida. Santificar, não no sentido religioso da palavra, nos cega de uma leitura igualitária do objeto. Ou seja, enxergamos aquela coisa e/ou pessoa de uma maneira que nunca poderia ser a nossa, a qual nós nunca seriamos capaz. Isso é falácia, pois ficamos incautos às ações alheias. Passamos a considerar sagrado, qualquer dito, qualquer ato e a considerá-lo uma verdade universal.

Ao perder esse olhar, e isso é praticamente inevitável, vemos nosso próprio desejo quebrado, jogado ao chão. Há quem saiba aceitar tal frustração. Outros não permitem a desvalorização da própria vontade. São os mais perigosos, estes. Poderão fazer de tudo para impedir a concretização do fatal.

No caso do atual presidente, e não falo só de Lula, falo da própria estrutura organizacional de governo e de como ela é formada. Mas o ex-metalúrgico está mais fresco em nossas memórias, por isso podemos usá-lo melhor como exemplo. A chegada de Lula ao poder ocorreu de uma forma messiânica, não acho nem que essa tenha sido sua intenção, mas foi a própria conjuntura que se instalou à sua volta. Assim sendo, todas as atenções e representações desejáveis se voltaram para ele. Era identificável que ele não iria poder fazer tudo que se esperava dele, por enes fatores, que aqui não cabem.

Junte-se a isso a imagem ao qual se atrelava o seu partido, o PT. Livre de todas as mazelas sociais e incorruptível, o PT sacralizou a imagem de um Lula, que apoiado nele próprio, seria o único a construir a Utopia. A cada minuto que esse projeto era visto mais distante, crescia a insatisfação e caia a mitificação. Opa, olha ali eles não estão conseguindo. Como não? É quando vêm à tona, todas as artimanhas usadas para chegar e permanecer no poder. Uma jogada maquiavélica dos dirigentes petistas, que armaram um esquema fugido do próprio controle. Pronto, cenário montado. Santo quebrado. Esperança partida.

Mas o mal da sacralização a que me refiro, não é exclusivo do jogo político, da famosa politicagem. Usei-o como exemplo por ser o assunto em voga e onde é fácil identificar tais mazelas. No dia a dia de pessoas comuns, isso está presente. Estamos sempre formando ídolos indestrutíveis e perfeitos. E sofrendo, por isso, decepções volumosas.

O primeiro esforço que devemos tentar fazer é o de reconhecer a fraqueza e diferença do e entre os espíritos humanos. Devemos enxergar qualidades e defeitos, pesando-os na balança moral e diferenciando o bom do mau caráter. Precisamos, também, identificar a importância dos grupos. Do trabalho unido e feito por partes distintas e diversas. Por exemplo, se a religião fizesse isso, excluindo-se de valer de uma verdade absoluta, poderíamos usar um conceito não atestado, como o de Deus (ou deuses, no caso) para uni-los em pró de único desejo, que por sinal, é o que leva as pessoas a procurar uma religião: a felicidade coletiva.

Dessacralizar é uma necessidade imediata para que não desprendamos, jamais, energias em cima de uma ilusão passageira e escurecedora. Para que nossas ansiedades não sejam saciadas por uma nuvem que encobre a lua não nos permitindo ver uma luz que vai e vem, todos os dias.

quarta-feira, setembro 07, 2005

De quem é esse lugar?

Comemorar a independência. Há 25 anos, todo sete de setembro, eu para, nada faço. Gosto mesmo, e como deve ser o caso de 99,9% dos meus conterrâneos, é do feriado. Poderia D. Pedro I imaginar, que nas margens do rio Ipiranga, aquele seu ato, seria festejado 183 anos depois, apenas por ser um dia a menos de trabalho no mês? O que acontece no país, aonde o patriotismo vem de maneiras tão díspares? Ou será que nosso povo não conhece a flâmula do orgulho nacional?

Taí, orgulho nacional, a própria expressão, muitas vezes, já é proferida em tom de chacota. Grandes literários da nação foram fundos nessa questão de nacionalismo e podem até ter contribuído um pouco sobre a imagem caricaturesca do homem-nacional. Policarpo Quaresma é o primeiro a chegar na lembrança. A construção da imagem de um povo que pertecem a um país, sem esse pertencer a eles.

Talvez o verdadeiro motivo de não se ter, no Brasil, um grande affair pelo dia em que comemoramos nossa independência, é o fato do povo não ter sido meio para tal. Alias, nesse país poucas coisas da vida social, a grande massa sente-se realmente incluída. Nesse momento, cabe a velha analogia com o esporte. Muito se diz, que brasileiro só é patriota com a Seleção Brasileira e com atletas olímpicos. Pode ser.

Mas o que podemos, de fato, enxergar dessas afirmações? Que são áreas de atuação, onde o pobre, o médio e o rico têm, realmente, as mesmas condições de desenvolvimento. No esporte, só a força, a vontade, a prática, o dom natural, podem levar qualquer um, a patamares superiores de reconhecimento. Quando isso acontece por meio de quem teve uma origem humilde, os outros 83% de desfavorecidos da nação conseguem achar um identificação.

Nesse sentido, o descrédito da política corre em sentido inverso. A desilusão na vida pública nacional é gerada, porque durante séculos, as elites dominantes conseguiram, manter o povo longe dela. Seja na participação, seja na compreensão política. No Brasil, político é quase uma dádiva, não adianta mexer com eles. Eles escapam. Fazem o que querem. Mandam. Parece vontade divina. Infelizmente, esse é o pensamento do brasileiro em geral. E na oportunidade que tivemos para destruir essa idéia, os fatos, a precipitação, amarraram um laço em nós, deixando nossa mobilidade por tais vias praticamente impossível.

E é justamente isso que querem os velhos dominadores. Os antigos Severinos, ACMs, Jerffesons. Que continuemos encoleirados, achando que o 7 de setembro é apenas um dia a menos de trabalho do ano. Querem nos fazer esquecer que esse país é nosso de direito. Será que eles conseguem? Depende de nós, continuo a achar isso. As fronteiras são maiores, a língua é maior, a cultura é maior do que uma simples empunhadura que fez pouca coisa mudar há 183 anos.