De volta aos velhos tempos
Texto do amigo Sama para refletirmos no dia 03/10
Nesse dia 16 de setembro de 2004, aqui na cidade do Recife, voltamos aos velhos tempos da ditadura. O advogado Dominici Sávio Mororó, integrante do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) foi perseguido, desde que saiu decasa, por homens que dirigiam um Palio e duas motos. Quando percebeu, telefonou para o delegado do Jordão, Antônio Cândido, que organizou uma barreira no bairro do Ibura, e prendeu os três homens. Um deles fugiu.
Agora, vamos aos detalhes: Retornemos a dezembro de 1968, quando o Ato Institucional no 5 entrou em vigor, e as últimas liberdades foram varridas do mapa. Os três homens presos eram: o 2º sargento Melquizedeck Alves Martins, os soldados Ivan Bezerra da Silva e Adalberto Leandro do Nascimento. Os três trabalhavam na Casa Militar de Pernambuco, instituição responsável pela segurança pessoal do governador. O governador não é nenhum coronel ou general, é Jarbas Vasconcelos, que, num passado muito distante, foi apaixonado pelas causas democráticas. Não se sabe o nome do fugitivo, mas foi até bom mesmo ele ter escapado acelerando sua moto, certamente com placa fria. Nos diz que estava fazendo algo errado, e que temos uma polícia que faz coisas sujas, paranão dizer imundas.
Agora, vamos a mais detalhes. As placas dos veículos eram frias. Os policiais levavam três revólveres, uma câmera fotográfica, umafilmadora digital, dois gravadores, um binóculo e dois rádios transmissores. Revólveres são utilizados para balear ou matar, a câmera para fotografar pessoas, a filmadora foi utilizada para registrar imagens de conflitos no Engenho do Prado e do Grito dos Excluídos, no último 7 de setembro. Acharam pouco? Pois bem, junto com os policiais, havia um dossiê com informações detalhadas sobre a rotina, parentes do advogado Dominici, e uma lista de advogados que trabalham com Direitos Humanos.
Na delegacia, os PMs disseram que estavam em "missão oficial", numa investigação conjunta com o Grupo de Operações Especiais (GOE). Foram liberados às 20h, por falta de "indícios criminais". Eu não sabiaque, em um estado que se diz democrático, a Polícia que trabalha diretamente com o governador tem o direito de andar por aí com carro de chapa fria, montar dossiês, fuçar a vida de pessoas, levantar nome dos parentes e rotina deum advogado - tudo na moita, às escondidas, como faziam os agentes doDoi-Codi.
Aqui no Recife, na época da ditadura, os agentes foram muito eficientes. Seqüestraram, mataram, torturaram, fizeram desaparecer. Há duas semanas, o advogado Mororó acompanha o suposto espancamento da ex-moradora depalafitas em Brasília Teimosa Maria do Socorro Santos. Ela saiu do anonimato de sua pobreza, no dia 20 de agosto, para se tornar a estrela do guia eleitoral no Recife. Na época, criticou o atual prefeito João Paulo (PT), e depois disse que só falou porque recebeu dinheiro do guia de Carlos Eduardo Cadoca (PMDB). Treze dias depois de aparecer no guia, causando um "frisson" nas campanhas, Socorro levou uma baita surra. Está atualmente em local secreto sob segurança doMovimento Nacional de Direitos Humanos.
O governador Jarbas Vasconcelos chamou de "fato corriqueiro" o envolvimento de PMs da Casa Militar em "casos mais complicados". Disse que não sabia nada. O vice-governador, Mendonça Filho, disse que se tratou de "um fato policial normal". O delegado Antônio Barros, do GOE, disse que foi um "incidente de investigação". Garantiu que o chefe da Polícia Civil, Aníbal Moura, não tinha conhecimento dos policiais da Casa Militar. É engraçado mesmo - ninguém sabe de nada. Se o advogado fosse morto, ficaria uns três meses nas mãos do delegado Aníbal Moura, que não resolveria nada. Depois, fariamumas três ou quatro exumações, versões diferentes, até o caso cair no esquecimento. Quem nunca viu esse filme? Aparentando ser bem jovem, Antônio de Barrosnem desconfia da contribuição que está dando para estragar nossa frágil caminhada democrática. Disse que o advogado Mororó vinha sendo "monitorado" por ser uma pessoa próxima a Socorro. Monitoramento por gente armada, usando veículos com placa fria, sabendo até o nome dos parentes e amigos, francamente, é me chamar e chamar a sociedade, nós todos que acreditamos em vida democrática, de idiotas, de imbecis.
Me sinto ultrajado. Numa entrevista ao JC dessasexta, a repórter Ciara Carvalho perguntou a Barros como ficava o trabalho de investigação, depois do episódio. "Estragado", foi o que ele respondeu. Em muitos lugares do mundo, um episódio desse tipo causaria demissões, exonerações, esclarecimentos, investigação séria, mobilizações cívicas. É muito triste, mas o governador Jarbas vai jogando no lixo sua história política. Ele e toda a cúpula da Polícia nos devem explicações rápidas. Fingir que não aconteceu nada grave é nos chamar de idiotas. Queria mesmo que todas as criaturas capazes de se expressar nesta cidade mandassem e-mail, cartas, telegramas, fizessem seus protestos, solitáriosou coletivos. Vai aqui a minha indignação contra este absurdo. E dou trêsvivas à gloriosa Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que, certamente, não vai silenciar sobre esta aberração, como nunca silenciou nos tempos em que era proibido falar, advogar, pensar. Tenho fome de Democracia, amigos.
SAMARONE LIMA tem 35 anos, é jornalista e autor dos livros Zé (1998) e> Clamor> (2003)
