sexta-feira, julho 14, 2006

As aventuras de um Galego no Pancadão

Às duas da manhã, o DJ interrompe um série de clipes com os maiores astros da R&B americana no telão e anuncia que o baile vai começar. A parede de auto-falantes em frente à entrada, dispara uma quantidade enorme de decibéis. O som é ensurdecedor e muito alto, focado nas freqüências graves.

Ao lado da mesa do DJ, dou uma espiada no equalizador e a regulagem é literalmente um flat com todos os knobs para baixo. A sobra de graves na pista provoca aquela coçeira incômoda da cabeça aos pés.

O DJ Fábio continua a berrar. “Vai começar o melhor baile do país”. Disparando a gravação na seqüência – Ca, Ca, Ca, Castelo em Chamas. A pista já está tomada de popozudos e popozudas. Da parede, são disparados pequenos foguetes, que ao fim desencadeia uma cascata de faiscas.

O baile começou. Eu, nordestino, classe média, branquinho e cheio de preconceitos fico reprando aquilo tudo, tentando achar explicações sociológicas, antropológicas, psicológicas, caralhógicas que fossem, enquanto todo o resto do baile só pensa em, parodiando o funk, dançar, dançar, dançar. Beijar, beijar, beijar.

Bom chamo Marcelo e vou buscar minha Cristal por R$ 1,00, até porque este foi um dos motivos mais fortes usados por ele para me convencer a pegar três conduções e ir ao um baile funk em Rio dos Pedras, favela plana, localizada em algum ponto entre a Barra e Jacarepaguá. Onde, nos dias de hoje, se encontra cerveja por esse preço? Nem mais no carnaval de Olinda. Na fila do tiquete da birita, reparo que a moda predominante é calça coloda, ressaltando o popó, e top (é assim??) para as mulheres e calça comprida e camiseta para os homens.

Pelo que pude notar, as pessoas assíduas dali tem dois comportamentos básicos, isso tanto os tigrões, quanto as tigronas, em sua maioria, obóvio. Ou estão ali para encontrar um parceiro(a), ou para simplesmente dançar. Na verdade, não sei se é exatamente assim. Mas pensar desta forma ajudou a me tranqüilizar. Também não vi qualquer princípio de confusão.

O Castelo das Pedras deve ter uma capacidade para umas duas mil pessoas no aperto. É basicamente um galpão onde da entrada se vê a parede de falantes. A esquerda fica o caixa, o balcão das cervejas e o banheiro. Há também um segundo andar que é o camarote vip. Para assistir ao baile de lá é só acrescentar R$ 4,00 ao valor da entrada, que é de R$ 5,00, para homens, mulher não paga até meia-noite, e ficar num posição privilegiada, vendo a massa uniforme dançando. Infelizmente, não tive o privilégio de experimentar tal vista.

Junto às pessoas ‘não importantes’, fiquei encurralado entre um bebado que precisou queimar três filtros para conseguir acender seu cigarro e um grupo de dançarinas à Denny Oliveira que sabiam cantar todas as letras e, não diferente, executar todas as coreografias. O teor literal do baile era de “Essa japonesa chama-se Takomkunavara, Takomkunavara” para “Tão novinha, Tão novinha para abrir a xerequinha”. Os clássicos do Bonde do Tigrão também não podem faltar. O dia era simples. Não havia nenhuma grande atração. Havia sim, faixas anunciando a volta do MC Marcinho no próximo dia 14 (soube mais tarde que ele sofreu um acidente, ou algo do tipo).

Depois de perceber que estava sendo um tanto pedante minha atitude de analisar tudo e todos daquele lugar, e depois da terceira Cristal, comecei a rir com a tentativa engajada de meus companheiros de se soltar no lugar e até arrisquei uns passos junto a eles. Leo Negão, nosso cicerone, já sabia até as coreografias mais difíceis e fazia com uma desenvoltura...

Na saída, descobrimos que não era preciso termos pego toda aquela quantidade de conduções até lá. A volta foi mais simples e mais tranquila. Uma van até a Gávia e um táxis até Laranjeiras, o momento da noite mais caro aliás. Exausto e acabado fui dormir pensando como aquelas pessoas se divertiam fácil. Eu confesso que a tensão do desconhecido só me deixou depois que eu deite na cama.

Soube depois que o Castelo em Chamas é um baile funk produzido pelos policiais, que dominam Rio das Pedras. Segundo consta, é a única favela do Rio sem tráfico de drogas, justamente por ser controlada por policiais, que cobram dos moradores uma taxa de segurança, mas isso é outro assunto. Verdade ou mentira eu não sei. Mas que em toda a noite não tocou os funks proibidões, isso realmente não aconteceu. Nem qualquer princípio de incidente grave foi detectado.

Ou seja, talvez eu ainda não tenha ido a um Baile Funk de verdade. Outro ‘broder’ carioca fez o convite para ir ao baile do morro do Salgueiro e ver uma festa funk carioca de verdade. Será? Ir ou não Ir? Eis a questão.