terça-feira, janeiro 24, 2006

O Fim e o Princípio

Eu queria fazer uma crítica sobre o filme O Fim e o Princípio, do documentarista Eduardo Coutinho que é exibido, atualmente, na Fundação. Mas, uma série de fatores me fez retroceder dessa idéia. Primeiro. Quando vi algumas resenhas feitas por mim nesse estrupício de blog, sobre filmes, disco, DVDs, achei todas umas grandes bostas. Do estilo que eu sempre critiquei. Portanto, não opinarei sobre nada, o que quer que seja, até não repensar uma maneira satisfatória.

Outro ponto que me inibe a escrever sobre o documentário é a riqueza de detalhes encontrada nele. São tantos pontos interessantes, que não farei análise nenhuma com apenas uma audiência. Preciso voltar, assistir, anotar para postar aqui algumas coisas que me chamaram bastante atenção, de uma maneira correta.

No momento, vou ficar com uma história. Mais que uma história, trata-se de um aspecto do depoimento de uma das personagens do filme, que me fez coçar o queixo. Para tal, vou precisar fazer uma rápida contextualização sobre O Fim e o...

A proposta do documentário é não ter proposta. O que pode parecer muito legal, é ao mesmo tempo um tanto arriscado. Coutinho e equipe se jogam no interior do sertão paraibano, atrás de histórias interessantes, de um povo, muitas vezes esquecido. É ai que entra em cena o grande diferencial do experiente documentarista. Eduardo Coutinho não vai atrás de pessoas para um filme. Ele vai fazer um filme para as pessoas encontradas, isso explica o porquê do projeto ser “itinerante”.

Num pequeno povoado, Coutinho começa a conversar com pessoas que formam uma espécie de clã familiar da região há tempos. Desses depoimentos, dessas conversas é que se constrói a beleza do documentário, como o documentário em si.

Dado esse contexto introdutório (não há crítica nele, há?), atenho-me a um dos momentos que me fez refletir. No depoimento de uma senhora, parteira do povoado, de seus sessenta e poucos anos, cuja memória não me deixa lembrar o nome, ela discorre sobre sua função. Entre dizer como começou, como trabalha, tudo numa sabedoria que só os puros possuem, ela responde sobre a forma de sua gratificação.

“Ah, num tinha preço, aceitava o que pudessem me dar” e continuava “tinha gente que nem tinha como enrolar o menino, como eu ia cobrar algo delas?”. Dá para notar o contraste que é um depoimento desse? Não o contraste de suas ações, mas da relação tempo x espaço em que ela vive. Como, em pleno século XXI, numa era de total individualização e devastação capitalista, uma alma dessa consegue sobreviver? Como no olho do furacão da globalização, onde a tevê é presença cativa, nas desprovidas casas visitadas, a relação de moral, ética, confidência desses seres continuam inabalável? Em outro momento da película, essa relação da palavra, da gratidão e do altruísmo, é novamente abordada.

Porém, é no caso da parteira que minhas idéias erupcionaram. Imaginem, o que é, num determinado local, você fazer um serviço essencial para sua sociedade e com exclusividade. Num “mundo moderno” essa conjuntura é sinônima, para enriquecimento. - Esqueçam pessoas, enxerguem consumidores. É o lema. Os valores humanos e os princípios básicos de uma existência somem em proporcionalidade ao progresso atingido por determinada civilização.

É engraçado, existir tão perto de nós, comunidades com características sociais tão intrínsecas e mesmo assim, ficamos correndo atrás de fórmulas e pesquisas para curar um mal incomensurável que atinge qualquer grande cidade do mundo. O desaparecer do Ser diante da sociedade causa males, que todos os dias queremos nos livrar. Quando num filme como O Fim e o Princípio, tudo parece ser tão simples. E ai está a grande sensibilidade de Eduardo Coutinho. Ter tratado todos os “entrevistados” (coloco entre aspas por usar a palavra apenas por valor usual, e não significante) como amigos, cumpadres. Que foi assim que aquelas pessoas se formaram na vida. A simplicidade e a atenção podem ser as grandes chaves para abrirmos os porões de uma sociedade mais valorizada, mais justa e digna. E nelas podemos nos apegar para todos os aspectos de nossas vidas.

Queria, também falar da sabedoria dessas pessoas, dos seus conhecimentos. Contudo isso requer sem dúvida uma nova sessão, um novo post. Talvez o faça. Por enquanto, encerro com uma das muitas frases poéticas amontoadas no filme.

“Eu adorava trabalhar na roça. Se Deus me revivesse a idade, eu voltava pra lá”.