Desilusão obrigatória
Um dos graves erros da humanidade é a sacralização. Primeiramente, ao sacralizar uma pessoa, ou um conjunto delas, no coso dos partidos, você a isenta imbuidamente de uma das falhas mais naturais do ser humano: o erro. Ao creditar a integridade máxima a algo ou alguém, tornamo-los livre da dúvida, da falha, da imperfeição. Como isso é impossível de acontecer em qualquer instância da civilização, nasce a decepção, que pode nos levar desde a descrença às guerras.
Foi assim com Lula e o Partido dos Trabalhadores, por exemplo. É assim com a religião e nossos ídolos. Se fizermos o possível, para não sacralizar coisas e/ou pessoas seriamos mais compreensíveis aos atos falhos, aos desvios e aos escorregões da vida. Santificar, não no sentido religioso da palavra, nos cega de uma leitura igualitária do objeto. Ou seja, enxergamos aquela coisa e/ou pessoa de uma maneira que nunca poderia ser a nossa, a qual nós nunca seriamos capaz. Isso é falácia, pois ficamos incautos às ações alheias. Passamos a considerar sagrado, qualquer dito, qualquer ato e a considerá-lo uma verdade universal.
Ao perder esse olhar, e isso é praticamente inevitável, vemos nosso próprio desejo quebrado, jogado ao chão. Há quem saiba aceitar tal frustração. Outros não permitem a desvalorização da própria vontade. São os mais perigosos, estes. Poderão fazer de tudo para impedir a concretização do fatal.
No caso do atual presidente, e não falo só de Lula, falo da própria estrutura organizacional de governo e de como ela é formada. Mas o ex-metalúrgico está mais fresco em nossas memórias, por isso podemos usá-lo melhor como exemplo. A chegada de Lula ao poder ocorreu de uma forma messiânica, não acho nem que essa tenha sido sua intenção, mas foi a própria conjuntura que se instalou à sua volta. Assim sendo, todas as atenções e representações desejáveis se voltaram para ele. Era identificável que ele não iria poder fazer tudo que se esperava dele, por enes fatores, que aqui não cabem.
Junte-se a isso a imagem ao qual se atrelava o seu partido, o PT. Livre de todas as mazelas sociais e incorruptível, o PT sacralizou a imagem de um Lula, que apoiado nele próprio, seria o único a construir a Utopia. A cada minuto que esse projeto era visto mais distante, crescia a insatisfação e caia a mitificação. Opa, olha ali eles não estão conseguindo. Como não? É quando vêm à tona, todas as artimanhas usadas para chegar e permanecer no poder. Uma jogada maquiavélica dos dirigentes petistas, que armaram um esquema fugido do próprio controle. Pronto, cenário montado. Santo quebrado. Esperança partida.
Mas o mal da sacralização a que me refiro, não é exclusivo do jogo político, da famosa politicagem. Usei-o como exemplo por ser o assunto em voga e onde é fácil identificar tais mazelas. No dia a dia de pessoas comuns, isso está presente. Estamos sempre formando ídolos indestrutíveis e perfeitos. E sofrendo, por isso, decepções volumosas.
O primeiro esforço que devemos tentar fazer é o de reconhecer a fraqueza e diferença do e entre os espíritos humanos. Devemos enxergar qualidades e defeitos, pesando-os na balança moral e diferenciando o bom do mau caráter. Precisamos, também, identificar a importância dos grupos. Do trabalho unido e feito por partes distintas e diversas. Por exemplo, se a religião fizesse isso, excluindo-se de valer de uma verdade absoluta, poderíamos usar um conceito não atestado, como o de Deus (ou deuses, no caso) para uni-los em pró de único desejo, que por sinal, é o que leva as pessoas a procurar uma religião: a felicidade coletiva.
Dessacralizar é uma necessidade imediata para que não desprendamos, jamais, energias em cima de uma ilusão passageira e escurecedora. Para que nossas ansiedades não sejam saciadas por uma nuvem que encobre a lua não nos permitindo ver uma luz que vai e vem, todos os dias.

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