Mutantes, Vivo Rio, 03/02
Merecimento. Essa é a palavra que pode melhor definir o recente retorno dos Mutantes às atividades. Chamem de uma volta caça-níquel. Digam que eles não estão com a formação clássica – com Rita Lee nos vocais e o produtor Liminha no Baixo. Falem que Arnaldo Baptista não é mais aquele tecladista virtuoso. Que Dinho Leme está com as baquetas enferrujadas. Ou que a nova cantora é Zélia Duncan. Está legal, eu aceito o argumento. Mas, novamente, eles merecem.
Os Mutantes merecem um Vivo Rio quase cheio em pleno mês de fevereiro, quando tudo cheira a carnaval. Eles merecem celebrar sua volta à Cidade Maravilhosa, por serem (ou terem sido) a banda de rock mais importante da música brasileira e uma das mais importantes do gênero. Vá perguntar a Beck Hansen. Eles merecem uma adoração cultivada durante os mais de 30 anos na qual a banda esteve acabada. É possível afirmar que a adoração em volta do quinteto hoje, é maior do que no tempo em que eles escreviam a História. E os irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista merecem mais do que ninguém. Rita Lee conseguiu ter sua carreira alavancada e reconhecida além de qualquer vinculação. Eles não, ficaram confinados no hall dos gênios a serem descobertos pós-morte. Sorte nossa que eles ainda foram descobertos a tempo.
Então que seja para ganhar dinheiro, que seja para satisfazer egos, não só eles, mas como também o público que não teve a oportunidade de vê-los no auge do Tropicalismo, merece Mutantes de volta. Embora, quem esteve no show viu que não é bem assim. Não há muito isso de oportunismo nesta volta. O, agora, quarteto apoiado por uma superbanda transpassa alegria para o público. É notória a emoção até dos músicos de apóio. O que transforma o espetáculo em uma grande celebração à música.
As canções estão muito próximas de suas versões originais. O grande mérito disso é, sem dúvida, do mais novo dos irmãos Dias, o guitarrista Sérgio. Ele é o grande maestro em palco. Apresenta a banda, elogia os músicos, faz juras de amor ao irmão e à nova integrante e nas horas vagas mostra toda habilidade de quem, ao lado de Lanny Gordin, foi ‘a’ guitarra do Tropicalismo.
O repertório é a mistura de clássicos (Balada do Louco, Ando Meio Desligado, Baby, Panis et Circenses) com as músicas mais psicodélicas (Ave Genghis Khan, Ave Lúcifer, Dia 36, Top Top). A abertura com a trovadoresca Dom Quixote, seguida de Caminhante Noturno já é suficiente para espantar a desconfiança dos mais xiitas. Percebe-se que está quase tudo lá: o humor, a irreverência, a criatividade, o psicodelismo e o rock’n roll estampado na inesperada A Hora e a Vez do Cabelo Crescer. O que falta é substituído por simpatia e admiração.
É o caso das limitações de Arnaldo Batista. Seu teclado é baixo, muito pouco perceptível. Sua voz é debilitada pelos seus problemas motores. Mas, a simpatia e admiração que ele transmite, faz com que todos saibam que estão diante de um gênio. Como em Minha Menina, quando ele, além de entrar errado num dos versos, ainda esqueceu a letra. Aos poucos, num improviso sorrateiro, ele foi se encontrando e criando uma nova letra culminando num êxtase da platéia e dos companheiros de banda.
Já Zélia é, na verdade, uma grande premiada. Às vezes, tem-se a impressão de que ela ganhou um concurso, e pôde ver o show do palco de tão feliz que está. E é, com certeza, uma menina em meio aos seus ídolos. Ela tem seus méritos também. O principal é o de em nenhum momento tentar ser Rita Lee, nem em gestos, nem em som. As vozes mais agudas ficam a cargo da backing vocals, Esmérya Bulgari. Músicas como Fuga nº2 e Baby não ficam tão comprometidas na voz de Zélia. É importante lembrar que a própria Rita Lee, não consegue cantar hoje, o que cantou no passado.
Depois de mais de uma hora e meia de show, um bis com Bat Macumba e Panis et Circense, que encerra de uma forma indescritiva. Criando um clima que só estando no local para saber. E uma sensação de que ninguém até hoje consegue fazer algo parecido. O público ainda passou uns dez minutos na expectativa de um segundo bis, que não aconteceu. Porém, melhor não ter tido mesmo. O show termina no ponto alto da parábola, no lugar onde eles mais merecem.


