Cuba libre
Esse é um texto da pscicóloga paulista Maria Rita Kehl sobre suas impressões de Cuba. Leiam e digam o que acham.
O colunista Marcelo Coelho, grande amigo que admiro muito, ensinou-me que um articulista não deve se dar o direito de escrever sobre suas experiências pessoais. Em outras palavras, não vale passar o carnaval na Bahia e depois escrever uma coluna no estilo “minhas férias”, como as redações que os professores primários nos pediam na volta às aulas. Só o Zé Simão tem o direito, e o talento, de fazer de suas férias ou de seu carnaval o assunto para um texto hilariante e inteligente.
Mas hoje abro uma exceção. É que passei oito dias em Cuba, por ocasião da Feira do Livro de Havana – e mesmo esta estadia tão curta me fez perceber que a diferença de paradigma entre a sociedade cubana e a nossa é tão grande, que sinto verdadeira necessidade de escrever alguma coisa a respeito.
O ex-herói revolucionário e atual ditador Fidel Castro não é digno da sociedade que ele comanda há quarenta e cinco anos, sem conceder quase nenhuma abertura democrática.
Ou, dito de outra forma: a sociedade cubana não merece a ditadura que a oprime, a pretexto de que o autoritarismo seja a única forma de garantir o socialismo em sua condição mais difícil, que é a do socialismo em um só país. As pessoas com as quais tive ocasião de conversar, em Havana, temem justamente o efeito contrário: a concentração de poder em torno de Fidel e o uso de seu carisma pessoal na resolução das crises sociais impediu que o socialismo cubano se fortalecesse por meio de instituições democráticas, capazes de representar e fazer valer a vontade popular. Assim, todos temem que, com a morte de Fidel, a experiência cubana vá por água abaixo.
A ditadura não protege o socialismo. Ela reverte o impulso emancipatório que deu a Cuba o triunfo de uma revolução de verdade, em 1959. Ela infantiliza um povo combativo que lutou pela liberdade duas vezes, primeiro contra os espanhóis e, meio século depois, contra os Estados Unidos. E, o que é pior: ela trai o socialismo, pois impede que a sociedade se aproprie, segundo suas necessidades e sua capacidade criativa, dos meios necessários para a consolidação de um regime que desafia todas as leis “naturais” de um mundo dominado pela livre concorrência e pela propriedade privada.
O que sobrou dos ideais da revolução em Cuba é mérito do povo cubano. Pois apesar de serem literalmente proibidos de pensar em outras soluções para seus problemas que não as impostas pelo governo, proibidos de projetar outro destino, individual ou coletivo, senão aquele (mal) planejado por Castro, os cubanos foram capazes de realizar uma mudança de paradigma – do individualismo para o coletivismo. Esta mudança não ocorre por imposição; ela depende do engajamento subjetivo das pessoas.
Não que estejam contentes com a pobreza em que vivem, não que não queiram os dólares trazidos pelos turistas, e alguns não sonhem com a possibilidade de se dar bem vivendo fora da ilha – como muitos brasileiros, aliás. Mas ali, nas ruas de Havana, a solidariedade deixou de ser ideologia para ser a normalidade da vida, prevalecendo de fato sobre a competitividade individual. Esta diferença é sensível, sobretudo para uma brasileira, acostumada à violência social que aumenta a cada dia em nosso país.
A violência brasileira, sabemos, não é apenas conseqüência da miséria e do abandono em que se encontra grande parte da nossa população (ao contrário de Cuba, onde nem mesmo os mais pobres estão desamparados). Ela aumenta, sobretudo – e isto atinge também os filhos das classes média e alta – como resposta ao alto padrão de competitividade que se tornou norma em um Brasil que aposta (ainda!) no triunfo da lei do mais forte como fator de desenvolvimento econômico e social. Aumenta em proporção inversa à da auto-estima popular, já que nos países regidos pela economia de mercado cada cidadão mede seu valor com base nas mercadorias que pode comprar. É por isso que, aqui, os assassinatos por motivos fúteis – a posse de um tênis, um arranhão na lataria de um carro – são mais numerosos do que os que caracterizam a criminalidade, digamos, tradicional.
A auto-estima dos cubanos está calcada na permanência do impacto subjetivo e social da revolução que fizeram, há quase 50 anos, com a cara e a coragem. Quanto tempo este impacto há de durar? Impossível saber. Mas os franceses, por exemplo, até hoje alimentam sua auto-estima e sua identidade nacional apoiados em uma revolução que se passou há mais de dois séculos, desembocou no terror e foi diluída pela restauração. É compreensível que, para os cubanos, ainda esteja muito vivo o orgulho pelo “triunfo da revolução”, ocorrido em um passado recente do qual muitos dos que a presenciaram, ou a fizeram, ainda estão vivos para contar a história. Os pobres, em Cuba – quase a totalidade da população – não gostam da pobreza, mas não se sentem desprezíveis por causa dela. E não se consideram (como nós...) inferiores aos habitantes dos países ricos. Eles têm mais do que se orgulhar.
Mas não devemos avaliar Cuba em comparação com o Brasil, e sim com o Haiti. Sem a revolução socialista, Cuba hoje seria um Haiti. Ou uma Guiana. Não temos que comparar a população de Havana com a classe média alta brasileira, mas com as nossas favelas. A diferença é que a pobreza dos moradores e a decadência das casas e edifícios de “Centro Havana” estão expostos aos olhos do turista – nossas favelas, não. Quem passeia em São Paulo ou no Rio de Janeiro conhece cidades aparentemente opulentas nas quais os pobres e os mendigos ou ameaçam os ricos, ou atrapalham a paisagem. Os outros estão segregados em cidades-favela que abrigam, provavelmente, mais gente do que a população de Havana.
Não é exagero dizer que em Havana não há pedintes; muito menos, crianças nas ruas. Os moradores de Centro Havana não estão abandonados à própria sorte. Não acordam todos os dias com medo de seus filhos se tornarem traficantes ou serem mortos por traficantes. O tecido social, lá, não está esgarçado como aqui. As pessoas respeitam as (muitas) filas que têm que fazer para comprar a cesta básica da qual ninguém será excluído. Os motoristas param nas quase apagadas faixas de pedestres, respeitam os ciclistas, não dirigem como se estivessem sempre dispostos a matar alguém. Pais e mães sabem que seus filhos irão estudar e não passarão fome, e que eles próprios não estarão abandonados, na velhice. Isso confere à vida social uma espécie de descontração, um modo desarmado de estar na presença do outro, que nós desconhecemos aqui, na terra do cada um por si e Deus pelo mais forte.
A cidade de Havana não tem outdoors. É uma paisagem urbana inacreditável a nossos olhos, acostumados a viver e passear por cidades que gritam o tempo todo, milhares de variações da mesma mensagem – compre: seja mais do que os outros. Existe a propaganda socialista, mas esta, afinal de contas, é bem discreta e pontual. Não recobre todas as fachadas da cidade. Achei graça nos amigos que apontaram a lavagem cerebral da publicidade oficial de Cuba, como se a onipresença da Coca Cola, da Nike, das diversas marcas de cerveja, do apelo fálico dos automóveis, a que já nos acostumamos, fosse diferente disso. Nesse caso, vale perguntar: que tipo de mensagens publicitárias você prefere que influencie seus filhos? Fantasia por fantasia, a moção de desejo expressa na propaganda socialista aponta para a possibilidade de uma lógica e uma ética bem melhores do que a lógica da exclusão (“seja especial; tenha o que ninguém mais tem”) e a ética da rivalidade permanente (“passe na frente de todo mundo”) da nossa publicidade. Além disso, nem toda a propaganda do governo cubano é mentirosa. Na frente da faculdade de Medicina: “uma vida humana vale mais do que todas as propriedades privadas do mundo”. Na estrada para Varadero: “Esta noite, 200 milhões de crianças vão dormir nas ruas; nenhuma delas é cubana”. Ou então: “As idéias justas nunca morrem”. Os cubanos acreditam nisso não porque são tontos, mas porque é verdade.
Tudo isso torna ainda mais revoltante a ditadura de Fidel, que não confia na maturidade da sociedade que o socialismo, ainda que precário, já construiu.

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