O Escritor
Pequenas poesias convalesceram em sua tela. Era um possível sinal do retorno de sua criatividade. O cansaço que o apossara, dissipou-se rapidamente e lá estava ele, o escritor, novamente pronto à ação. As idéias eram tão volumosas, que o cursor mal aparecia no cristal líquido do computador. Apenas letras sucediam umas as outras, como que sem significado algum. Como se o sentido daquilo tudo, só pudesse ser desvendado após o ponto final. Mesmo que o autor ali parasse para um café. E era aquilo mesmo. Mesmo existentes, os vocábulos não poderiam ser compreendidos naquele instante, não enquanto as teclas soassem uma preciosa sinfonia. Não haveria de ter sentido o substantivo “cão”, nem o subseqüente “televisão”. Lidas, ali, isoladas, eram apenas lixos gramaticais, de igual atributo a um resto de queijo apanhado no lixo pelos míseros. Aquele rompante de luz criadora não podia parar. Sem pensar em mais nada, nem mesmo em um objetivo ao que queria dizer, ele escrevia o que primeiro aparecesse de sua razão. Quem o via de fora podia apostar, que ali estava um homem a escrever frases desconexas. Talvez até ele se vendo de fora pensasse essa bobagem. Mas, à mesa estava um escritor, de anos, com o domínio da língua e o conhecimento da profissão. Não era nenhum amador espremendo a cabeça, implorando por pensamentos para um debute literário. Em ato resguardado, estava um gênio em gestação, criando mais uma chave para a abertura das emoções internas de cada leitor. Naquele momento, ele se sentia flutuando. Meio que dentro de uma bolha de sabão, sendo levado pelas correntes de ar por toda a cidade. Só ele, sua cadeira, seu bureau e seu computador, que parece não carecer de energia para funcionar, apenas de criatividade. Quando aquela bolha estourasse, significaria o fim da obra, a conclusão da história, a fabricação do último ponto. Eis que tal bolha estourara antes, em momento pouco previsto. Iluminado, pela luz interna de sua máquina, o escritor cancelara a feição empolgada em seu rosto e imprimia um ar de preocupação. Os dedos, antes tão velozes, cessaram repentinamente feitos eletrodomésticos em uma súbita queda de energia. Isso nunca o acontecerá antes. Em 40 anos de labuta, nunca fora trapaceado por seu juízo em plena cascata de criação. Para piorar não houvera nenhum fator externo o atrapalhado. Nenhum neto adentrara tempestuosamente o quarto. A voz da mulher não anunciara o jantar. Nem vizinhos sibaritas inventaram do nada, uma festa em plena tarde de terça. De maneira que o escritor não compreendia o que se passava. Poderia até usar o fato a seu favor, mas ai não seria inédito. Quantos escritores já haviam rabiscado sobre o não-conseguir-escrever, pela escassez de idéias. Além do mais estaria ele fazendo o contrário de sua técnica, de sua forma, com a história puxando as palavras, quando são as palavras quem devem puxar a história. Imóvel, continuou em frente ao computador, parecia prever que aquilo era somente um tropeço, porventura causado de sua afobação na escrita. E por horas continuou ali estático. Os olhos lacrimejavam. Na coluna sentia invisíveis cravadas de um punhal. Sua esposa não notara nada estranho, afinal se acostumara a dormir sem o marido diversas noites por ele varar dias a escrever. Ele já perdera a noção de tempo, pela primeira vez não pelo excesso de trabalho, e sim pela falta dele. Não sabia precisar a quanto tempo estava ali sentado em frente ao computador. Pensou em descrever as sensações que sentia, mas cometeria o mesmo equívoco de outrora. Em tênue desespero, procurava se conter para não piorar a situação. Engoliu o choro várias vezes por entender que aquilo era se entregar. Mesmo de outra geração, dominava razoavelmente a informática, não era nenhum desses adolescentes cibernéticos nascidos já plugados a máquinas, mas navegava no mundo virtual e até gostava. Fitou várias vezes o pequenino ícone “e” no canto inferior esquerdo da tela pensando em pedir ajuda com dois estatelar do mouse. Contudo, logo desistia da idéia. Se fosse para pedir socorro, melhor seria recorrer aos livros, que se aglomeravam aos montes na sua retaguarda. A dúvida era se devia levantar dali. Sair daquela posição, correndo o risco de ser ela vital para a retomada dos pensamentos. Pouco católico, pediu a Deus uma orientação. Fato incomum para ele, que se julgava, modestamente, um bom intelectual. Mas a inépcia parecia não ter mais fim. Nem o sono se aproximava tamanha a tensão daquelas horas. Não conseguia pensar em nada. Sua mente se transformara numa imensa tela branca, quase transparente. Quando se concentrava a fim de retomar o impulso criador, podia ver as partes internas do seu crânio. As paredes do quarto já sugaram a angústia daquele homem. O escritor, ali, tão indefeso diante de sua incompleta criação, sentia tudo à sua volta derreter. E a sucessão de vocábulos que até então nada diziam, pareciam agora, significar a alma de um monstro. O mostro do furto criativo. Foi então que subitamente, o escritor começara a vociferar os fonemas digitados. E os lia repetidas vezes, sempre aumentando o tom de voz e a velocidade de leitura, criando a si próprio uma sensação rotatória que o levara a tombar da cadeira. Com o teto à vista, continuara repetindo as palavras, já decoradas. Tatu, terra, cálice, água, sofreguidão, balançar, pires, lúdico, sonho, pente e assim seguiu até que sua mulher o encontrasse estatelado no chão com o olhar desfocado. Sem espanto, a senhora parecia entender o que acontecera naquele recinto. Parecia que houvera visto tudo, espiando o acontecimento há horas. Ajudara-o a levantar e se recompor na cadeira e fora tranqüilamente em busca de um copo de água para seu esposo. Novamente o escritor tornará a ver a tela, que lhe implorava por uma conclusão, um fim. Que como uma criança a pedir um presente de Natal, aquela obra lhe requisitava um ponto final. A mulher surge mais uma vez no cômodo, serena e pueril. Estende-lhe a mão com a água, beija-lhe e vira-lhe as costas saindo calmamente, pé ante pé. Um repulso, então, expulsa a inércia criativa e seus dedos, um tantos independente, voltam ao trabalho, do exato ponto de parada, como se nada houvesse acontecido. De uma hora para outra, o escritor esqueceu de tudo que se passara, e achando que ainda fosse a mesma tarde de terça, põe fim ao seu trabalho. Ao ser relida, ele percebera que a nova criação apresentava um único sentido: amor.

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