O complexo de Pinóquio
O Post do dia vai ser esse texto massa que saiu no Le Monde sobre a mentira. Ao ler o texto, podemos observar, que da mais altruísta a mais cínica, todos nós já mentimos um pouquito. A minha mentira eu vivo todo dia indo para o trabalho. E a sua???
Se ninguém mentisse, a vida seria um inferno
Mulher mente mais, mas conta mentiras altruístas, dizem psicólogos
Catherine Vincent Em Paris
A maioria das pessoas tende a se achar incapaz de enganar os outros, mas se considera competente quando se trata de desmascarar os farsantes. A verdade, quase sempre, é exatamente o contrário desta convicção.
Sejamos honestos: nós todos mentimos, cotidianamente, e até mesmo várias vezes por dia. "O homem é de gelo em relação às verdades. Ele é de fogo para as mentiras", escreveu Jean de La Fontaine (poeta e fabulista, 1621-1695).
Nós mentimos para proteger os nossos interesses e os dos outros. Nós mentimos porque aqueles com quem nós estamos falando reagiriam de formas muito negativas caso nós lhes disséssemos o que pensamos realmente deles. Nós mentimos para continuar a amar os nossos próximos, e para que eles continuem a nos amar. Nós mentimos para preservar a nossa imagem, nós mentimos para valorizar a nossa pessoa ou para seduzir... Se nós não mentíssemos, a vida seria infernal.
Contudo, se isso acontece não é por falta de termos sido avisados. Quando éramos crianças, mal sabíamos falar ainda que os nossos pais, com ar severo, nos faziam entender a seguinte realidade: mentir, é feio.
Mas, no mesmo momento, a vida se encarregava de nos mostrar o contrário!
Entre as verdades que não devem ser ditas, "porque isso não se faz", e os agradecimentos que devem ser distribuídos, "porque foi muita gentileza dessa pessoa ter-lhe dado um presente" (por mais horrível que este seja), a criança não demora muito tempo a entender que existem, nesta matéria, dois pesos e duas medidas. Entre a moral e a prática, tudo é uma questão de escolha... Assim, a verdade que sai da boca das crianças acaba logo se tornando relativa.
Os psicólogos sabem muito bem disso: de 3 a 9 anos, a destreza em mentir aumenta de maneira regular. Quanto mais os pequenos se tornam grandes, quanto mais eles se revelam capazes de simular uma emoção que eles não sentem, e quanto mais as suas lorotas parecem ser críveis.
Mas seria um equívoco atribuir esta faculdade apenas à nossa espécie humana: os animais, por sua vez, tampouco se furtam a mentir!
Pelo menos, aqueles cujo cérebro é suficientemente desenvolvido para que eles sejam capazes de pôr em prática, procedimentos de manipulação social, assim como fazem os nossos primos primatas.
Por muito tempo, as observações de tais comportamentos permaneceram isoladas, anedóticas, sendo quase sempre taxadas de antropomorfismo pelos seus detratores. Isso até que os primatólogos Andrew Whiten e Richard Byrne, por volta do final dos anos 80, resolveram dar início a uma vasta pesquisa junto a uma boa centena dos seus colegas, com objetivo de coletar o máximo de informações sobre este tema.
"Após a publicação, em 1988, do livro que apresentou os resultados desta pesquisa, a enganação entre os primatas passou a ser vista como uma configuração comportamental amplamente disseminada, difícil de ignorar", precisa a psicóloga Véronique Servais no seu livro intitulado
"L'Ethologie" (A Etologia, editora Seuil, coleção "Points-Sciences", 2002, 340 páginas, 7,95 euros --R$ 29), uma disciplina que estuda os hábitos dos animais e da sua acomodação às condições do ambiente.
Um jovem babuíno que, após ter observado durante um certo tempo uma fêmea cavando pacientemente um solo duro e seco para dele extrair um saboroso tubérculo, emite de repente, sem causa aparente, um grito de desamparo parecido como aquele que dão os pequenos quando eles são agredidos.
Imediatamente, a sua mãe se precipita, e, furiosa, expulsa a fêmea do lugar... Então, depois disso, o jovem babuíno acaba tranqüilamente o trabalho que esta última havia laboriosamente começado. Trata-se de uma enganação tática que o seu autor parece estar pondo em prática intencionalmente, e não conforme um condicionamento operante tal como existem tantos nos indivíduos de espécies menos evoluídas.
Então, se até mesmo os macacos trapaceiam, por que não nós? Em nome da ética? Basta tentar imaginar, nem que seja por trinta segundos, um mundo sem mentiras para rejeitar o argumento. Seria simplesmente impossível freqüentar alguém que dissesse constantemente tudo o que pensa. Além disso, nem por isso se saberia a verdade, mas apenas a verdade dele...
A mentira é um mal necessário, inerente à vida social. Alguns, simplesmente, mentem mais do que outros.
Esses "mentirosos" verdadeiros, quem são eles? Serão eles manipuladores, que praticam a arte de contar lorotas para levar as suas vítimas lá onde eles desejam? Serão eles jogadores, para quem a vida não vale a pena ser vivida a não ser encenando vários papéis? Serão eles sujeitos em busca de revanche, que não se cansarão de forçar quem estiver por perto a agüentar aquilo que, durante a sua juventude eles tiveram que agüentar?
Psiquiatras, psicólogos e psicanalistas poderiam dissertar ao infinito sobre este tema, que diz respeito ao mais íntimo da personalidade de cada um.
Resta uma única certeza: pouco importa quais sejam as suas razões objetivas e as suas motivações internas, aqueles mentirosos jogam com os limites. Não os limites que separam o normal do patológico (tratar-se-ia neste caso de mitômanos, não de mentirosos), e sim aqueles, ainda mais arbitrários, que separam o bem do mal.
De fato, não se pode ter muitas ilusões: quase sempre, aquele que se tornou mestre de fato em praticar a enganação tornou-se assim para defender o seu próprio interesse. Quer se trate de proteger o seu casal e a sua liberdade, de aumentar o seu poder ou escapar das obrigações, tratar-se-á, em primeiro lugar, aos seus olhos, do caminho mais curto e mais seguro para alcançar os seus objetivos.
Por omissão --a forma mais simples da mentira-- ou por meio de falsificação, recorrendo à mais pura má-fé ou a alegações escoradas em inúmeros detalhes, sentindo medo ou experimentando uma grande exaltação (pode-se ter muito prazer em enganar), de maneira ocasional ou sistemática, grandiosa ou medíocre, existem mil maneiras possíveis de mentir.
Mesmo que elas sejam desvendadas por aqueles que foram vítimas delas, algumas dessas mentiras permanecerão aceitáveis, e até mesmo enternecedoras. Ao passo que outras provocarão um sentimento de traição intolerável... Entre a pequena fraqueza que alguém procura dissimular e o abuso de confiança caracterizado, pode haver um vasto universo.
Existe um pequeno reconforto para os moralistas: as mentiras que nós proferimos no dia-a-dia da vida nem sempre têm por objetivo obter uma vantagem para si mesmo. Podemos travestir a verdade em favor de outra pessoa, para não preocupar ou para proteger alguém.
Essas são mentiras que podem ser chamadas, de certa forma, de "altruístas", e para as quais as mulheres parecem ser mais bem preparadas do que os homens: diferentemente do que defende uma idéia persistente, os testes mostram que elas não proferem mais mentiras do que eles, mas que elas o fazem, uma vez em cada duas, com um objetivo desinteressado.
Além de serem mais gratificantes para a imagem que se tem de si, aquelas mentiras são também mais fáceis de dar certo, uma vez que elas mobilizam menos emoções negativas (o medo, a vergonha). Mas será mesmo que elas são tão benéficas assim para aqueles a quem elas se destinam? Não podemos esquecer de que nem toda verdade, de fato, vale ser dita a quem não quer ouvi-la.
Diante de uma pessoa, por exemplo, que está condenada por uma doença mortal mas que não quer saber de nada, é melhor manter o silêncio sobre a gravidade do seu caso: um excesso de franqueza apresentaria o risco de lhe tirar as suas últimas forças.
Mas os psiquiatras infantis são unânimes: a uma criança que indaga aos grandes sobre uma questão crucial ou dolorosa (a doença ou a morte de uma pessoa querida, a separação dos seus pais, a história de sua concepção), é preciso sempre dizer a verdade. Para tanto, pode-se optar por omitir eventualmente alguns detalhes, mas sem dissimular os aspectos essenciais.
Mentir para preservar o outro, mas não enganá-lo, mentir para preservar a si mesmo, mas sem trair o outro em excesso... No meio de tudo isso, cada um de nós se vira como pode. Com a sua personalidade, mais ou menos íntegra, mais ou menos cínica. Com as circunstâncias de sua vida. Com a confiança, ou o sofrimento, dos seus próximos.
Em certos casos, pode-se mentir movido pelo desejo louco de transformar a mentira num sonho do qual todos poderiam aproveitar, assim como aquele pai maravilhoso cuja verdadeira vida é falsa e confere todo o seu sabor a "Big Fish" ("Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas", o filme de Tim Burton).
Ficção? Realidade? La Fontaine já estava convencido disso: "Le doux charme de maint songe / Par leur bel art inventé, / Sous les habits du mensonge / Nous offre la vérité." ("O suave encanto de tantos sonhos / Por meio de sua bela arte inventados, / Sob as vestimentas da mentira / Nos oferece a verdade.")

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