Ainda há esperança???
O Artigo abaixo de Cristovam foi publicado no JC de hoje. Tá muito bom. Depois eu quero fazer algumas comentários sobre ele, mas agora tô com preguiça. Leiam e reflitam.
Fome de EsquerdaPublicado em 08.10.2004
CRISTOVAM BUARQUE
No mesmo dia em que os presidentes Zapatero e Lula apresentavam em Nova York a proposta de uma campanha mundial contra a fome, tive a oportunidade de conversar, em Lisboa, com o ex-presidente Mario Soares sobre o futuro da esquerda.
Na ocasião, nos perguntávamos qual é a diferença entre esquerda e direita, hoje, em nossos países. Basta lembrar que a proposta do presidente Lula, do PT, e do presidente Zapatero, do PSOE, foi subscrita também pelo presidente Chirac. E já tinha sido tentada pelo presidente Kennedy.
Até recentemente, a diferença entre esquerda e direita se concentrava na utilização do Estado com respeito à economia. A esquerda queria controlar a economia, a direita acreditava no mercado. Hoje não há mais diferença com relação a esse ponto. A esquerda evoluiu, entendeu os limites da economia, assumiu a responsabilidade fiscal, percebeu que nem sempre o Estado atende aos interesses da população e que o setor privado tem um papel social dinâmico e positivo. Mas não evoluiu no sentido de substituir suas antigas utopias por outras. Ficou prisioneira de sua evolução, e identificou-se com a direita.
No lugar de evoluir adaptando-se à nova realidade mundial, a esquerda evoluiu negando-se a si mesma, e identificando-se com o lado bom da direita assistencialista. Os presidentes reunidos na ONU, liderados por Lula e Zapatero, aceitaram a concepção de que a luta contra a pobreza se fará pelo crescimento econômico até chegar aos pobres, com medidas puramente assistenciais, na forma de programas de ajuda coordenados internacionalmente, tal como propôs Kennedy. Esse caminho poderá reduzir a fome no mundo, e isso será um grande serviço humanitário. Mas não servirá para enfrentar o problema da exclusão.
No lugar do transbordamento da economia, defendido também pela direita, a esquerda poderia se diferenciar apresentando uma estratégia de inclusão. A luta contra a pobreza não se daria graças ao crescimento econômico e à transferência de renda, por meio de salários baixos ou esmolas, mas sim mediante investimentos públicos, especialmente na educação.
Mais do que seguir o exemplo de Kennedy, com a Aliança para o Progresso, é melhor seguir o exemplo de um novo Plano Marshall Social Global. Social, porque no lugar de buscar o crescimento econômico, com base em uma população já educada, como no caso da Europa dos anos 40 e 50, ele buscaria atender as necessidades sociais. Global, porque no lugar de concentrar-se na Europa e no Japão, procuraria atender a população pobre do mundo inteiro.
Unesco, Unicef, OIT, Bird, BID e OCDE são algumas das entidades internacionais que têm condições de administrar e implantar um programa desse tipo. A renda mundial de quase US$ 40 trilhões por ano é suficiente para financiar um grande programa mundial de luta contra a pobreza, não apenas assistencial, mas transformador por meio da educação. O melhor mecanismo seria levar para o mundo um programa do tipo da Bolsa-Escola, iniciado no Brasil, mas aplicado com muito mais sucesso no México.
É cedo para saber as conseqüências da proposta de Zapatero e Lula, mas pode-se desde já tirar proveito dela dentro de seus partidos, provocando um debate sobre nossa identidade e sobre o que nos diferencia dos demais partidos à direita no espectro político.
Quando a política cria a esquerda da fome, o pensamento começa a ter fome de esquerda. Precisamos retomar os sonhos e os compromissos com os objetivos libertários para a educação, a saúde, o emprego, a aposentadoria, a cultura e todos os aspectos da vida social. Recuperar partidos para que, no poder, reorientem o futuro de seus povos.
Cristovam Buarque é professor da Universidade de Brasília, senador do Distrito Federal pelo PT (cristovam@senador.gov.br / www.cristovam.com.br)

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