segunda-feira, maio 23, 2005

CONTARDO CALLIGARIS> >"Closer - Perto Demais": por que somos infelizes em amor?>

>Concordo com Caetano Veloso, "de perto ninguém é normal". Mas>"Closer - Perto Demais", de Mike Nichols, me deixou pensando>diferente: de perto, somos normais demais.>O filme é uma demonstração tocante de nossas impotências e>incompetências sentimentais. Se você quer saber por que, em regra,>somos infelizes em amor, não perca.>Para não estragar o prazer de quem não viu o filme, nada de resumo,>apenas as reflexões fragmentárias com as quais passei a noite,>depois de ter assistido a "Closer - Perto Demais".>1) Por que, no meio de uma história amorosa que funciona, um>encontro (que sempre parece mágico) pode levar alguém a trocar a>intimidade de um casal companheiro por uma visão?>Os evolucionistas dizem que os homens são infiéis por necessidade>biológica. Para que a espécie continue, os machos seriam programados>com o desejo de fecundar todas as fêmeas possíveis. A teoria tem uma>falha: as mulheres são tão infiéis quanto os homens (embora os>homens se recusem a acreditar nessa banalidade).>O senso comum tem outra explicação: a paixão iria se apagando com a>repetição, os humanos gostariam de novidade. Pequeno problema: a>idéia de que a novidade seja um valor é especificamente moderna; no>entanto a inconstância em amor é um hábito antigo. Outro problema>ainda maior: na condução de nossas vidas, somos obstinadamente>repetitivos. Insistimos nas mesmas fantasias e nos mesmos sintomas.>Contrariamente ao que diz o provérbio, errar é divino, perseverar é>humano. Por que seria diferente em matéria amorosa? Como pode ser>que um encontro, em que mal se sabe quem é o outro ou a outra,>contenha uma promessa que basta para levar alguém a dar um chute num>amor que dura? >Tento responder: apaixonar-se é idealizar o outro, durar no amor é>lidar com a realidade do amado ou da amada. Antes de ponderar os>charmes da idealização, duas observações.>Um impasse: para manter a paixão, devo continuar idealizando o>parceiro. Mas, para idealizar o outro, devo mantê-lo a distância. Se>mantenho o outro a distância, renuncio aos prazeres de amor,>companheirismo, cumplicidade, convivência.>Um paradoxo: se me separo porque me apaixono por outra ou outro, o>parceiro que deixei se distancia de mim, portanto volto a>idealizá-lo e a me apaixonar por ele.>2) Por que gostaríamos tanto de idealizar o outro que vislumbramos>num novo encontro? Uma nova paixão amorosa é provavelmente o>sentimento que mais pode nos transformar, para o bem ou para o mal.>Por exemplo, se o outro me idealiza, carrego seu ideal como um>casaco novo: modifico minha postura para que o pano caia bem no meu>corpo. De uma certa forma, tento me parecer com o ideal que o outro>ama em mim. >Cada amor, quando começa, é uma aventura. Não porque encontro um>novo parceiro, mas porque, ao me apaixonar, descubro ou invento um>novo ideal e, ao ser amado, mudo para me aproximar do que o outro>imagina que eu seja.>A inconstância amorosa talvez seja a expressão imediata do desejo de>mudar -não de trocar de parceiro, mas de se reinventar.>Não é estranho que, na hora em que um amor começa, alguém decida se>dar um novo nome. Nenhuma mentira nisso, apenas a convicção e a>esperança de que a paixão nos transforme.>Infelizmente, mudar é difícil: a sedução exercida pelos novos amores>é uma veleidade, um pouco como as resoluções de que as coisas serão>diferentes no ano que começa.>3) Dizem que um casal que se ama briga muito. O uso erótico das>brigas é conhecido: a paz se faz na cama. Menos conhecido é o uso>amoroso das brigas: chegar ao limite da ruptura pode ser um jeito de>recomeçar, de voltar ao momento inicial da paixão, quando ambos>esperavam que o amor os transformasse.>Problema: ninguém sabe qual é o ponto de equilíbrio além do qual as>brigas não garantem renovação nenhuma, apenas desgastam um amor que>se perde. >4) Alguém se apaixona por outra pessoa porque, ele se queixa, sua>parceira precisa dele. É aquela coisa: seu amor me exige demais,>você me sufoca, me prende. Isso, é claro, é um jeito de dizer: com>você sou sempre o mesmo. Também é uma projeção: separo-me porque não>agüento minha própria dependência de você. Visto que me detesto por>estar a fim de lhe pedir amor a cada minuto, acho intolerável que>você me peça. Quem pensa e age assim, em geral, fica sozinho no fim.>5) Um homem volta para o lar depois de ter estado nos braços de>outra. Sua mulher pergunta: você me ama ainda? Ela tem razão, é a>única pergunta que importa.>Uma mulher volta para o lar depois de ter estado nos braços de>outro. Seu homem pergunta: você esteve com ele? Insiste: quero a>verdade. Pede os detalhes: gostou? Gozou? Onde aconteceu, em que>posição, quantas vezes?>O ciúme feminino é uma exigência amorosa. O ciúme do homem é uma>competição com o outro, um duelo de espadas, uma esgrima homossexual>que tem pouco a ver com o amor pela amada e muito a ver com as>excitantes lutinhas masculinas da infância.>Enfim, quem sabe o filme nos ajude a inventar jeitos de amar menos>desafortunados e mais interessantes.