Uma banquinho e uma guitarra
Sempre pensei a música como um todo. Por isso desde que aprendi a tocar um instrumento o fiz como forma de canalizar meu sentimento criativo para uma forma concreta. Durante muito tempo nunca me preocupei com o instrumento em si. Mas, como de um instrumento eu chegaria nos outros. O lado bom disso é que você pode se tornar mais criativo como compositor, arranjador, etc... Porém, isso lhe impede de saber dominar seu equipamento, o que pode acabar prejudicando o lado positivo.
Da gravação do disco para cá, é que tenho me dedicado mais ao “estudo” do instrumento, no meu caso a guitarra, para que ela não venha a estragar o já citado lado bom da coisa. E quando eu falo de estudo, não falo da parte técnica, teórica. Falo de saber conhecer o instrumento e tirar o máximo e o mínimo dele. Saber quais suas limitações. Que outros rumos eu posso dar a ele. E não deixá-lo apenas como transmissor de melodias e harmonias quaisquer.
Também não me refiro ao conhecimento industrial da guitarra. Ou seja, saber quais as melhores marcas de guitarras, amplificadores e pedais. Quando falo em “estudo” (daí as aspas) falo de saber onde numa banda cada uma deve se colocar em função da canção (a coisa mais importante de uma banda de rock).
É saber com o meu set de equipamentos o melhor som que eu posso tirar e o mais original também, por que não? É saber como faço para ela soar bonita e outras coisas mais. Hoje, como membro de uma banda, tenho me preocupado mais com isso do que em me aperfeiçoar virtuosamente e compor. Talvez, esteja assim porque sinto essa necessidade na minha banda e em nossas composições.
Por pensar assim, sempre tive poucos ídolos instrumentistas. São raros aqueles músicos que empunham uma guitarra e que eu seja fã, tenha todos os discos e tal. Outro dia conversando com o ‘broder’ Enio pelo MSN, perguntei-o quais OS cinco guitarristas para ele. Quando foi minha vez de dizer tive uma dificuldade enorme. Justamente por nunca ter parado para prestar atenção, uma atenção esmiuçada em guitarheros.
Mesmo hoje, que venho tendo essa grande preocupação, considero os meus ídolos àqueles que aliam a competência técnica com a qualidade autoral. Bom, acho que, com certeza, eu não sou o único a pensar assim. Nem estou falando nenhuma novidade. Mas, há muitos músicos, e excelentes músicos, diga-se de passagem, que primeiro pensam o tratamento virtuoso com o instrumento, depois o conteúdo logístico e por último o autoral. E que por pensarem assim, preferem repetir em seus sets uma equivalência com o seu ídolo do que procurar o seu som particular.
É claro que você pode influenciar-se pelo seu ídolo e adquirir, alguns instrumentos por causa dele. Isso é óbvio, obóvio e ululante. Por exemplo, uma pessoa pode querer começar a tocar guitarra por causa de Hendrix (muitos devem ter feito isso, aliás). Ai vai, compra uma Fender Stratocaster e corre para conseguir fazer tudo que o negão fazia. Aqueles mais talentosos, depois de dois anos vão tocar melhor do que o próprio, se brincar. E ai eles vão ficar igual a 80% dos músicos que são ótimos instrumentistas, mas não sai do lugar. E por que???
Porque não desenvolveram um estilo próprio, mesmo que pobre, mesmo que pouco, mesmo que parco. Hoje, empenhando-me nessa busca de conhecimento sobre o instrumento consigo ver ao meu lado, excelentes guitarristas que digeriram bem suas influências e mesmo não sendo o Deus da guitarra, são incríveis no seu domínio particular do instrumento. Agora, consigo dizer alguns guitarristas que me influenciaram bastante e só percebi recentemente. Contudo, essa influência foi muito mais como compositores do que como instrumentistas.
O primeiro deles é Jimi Hendrix. Por todas essas coisas citadas ele é o melhor guitarrista de todos os tempos. Ele aliou exemplarmente, a técnica, o estilo próprio, o conhecimento mecânico da guitarra e a composição. Não é a toa que até hoje, influencie tanta gente. As suas músicas continham solos de guitarras, timbres perfeitos, lombras tiradas com os equipamentos. Sem falar que ele é A PEGADA da história do rock. E isso não é pouca merda. Essa palavra em caixa alta ai, é o que eu considero o essencial para qualquer bom instrumentista. E não confundam pegada com volume. Pegada é o som que vem de você para o instrumento. Por exemplo, se hipoteticamente eu subisse no palco de Hendrix, não alterasse em nada o ajuste dele e fizesse o mesmo simples acorde dele. Nossos sons sairiam completamente diferente.
Meu segundo guitarhero é o Johnny Greenwood, do Radiohead. Ele para mim é a síntese do tocar para a música. Ele não faz nada que um guitarrista médio não possa reproduzir. Mas ele tem o poder de transformar sem instrumento em outra coisa. Numa nave espacial, numa explosão atômica. É outro guitarrista de som único e que está sempre se renovando. Acho que qualquer professor de conservatório que o visse tocando e execrar sua postura, mas que se danem.
Geroge Harinsson é o terceiro grande homem da lista. Esse cara é a personificação do guitarrista que me influenciou como compositor e não como músico. Deixo bem claro aqui, que não componha a unha midinha desse monstro sagrado. George foi quem me “ensinou” os supracitados sons vintages. Ele é um dos responsáveis por eu, assim como milhares de outros guitarristas, adorarem velharia. Ele toca sem fazer força, sem fazer cara, sem se aperriar. Tocava o que queria, na hora em que queria. E em seu vigor instrumentista repetiu o que foi a sua postura pessoal: Calmo e discreto.
O quarto guitarrista da lista é bem curioso. Apesar de não ser um grande fã da sua banda. Ele é daqueles que mostra a importância da personalidade para um conjunto. Graham Coxon, do Blur, consegue tirar lindos timbres com sua telecaster 52’. O blur perdeu muito com sua saída. Além de belos timbres ele tinha uma batida com muito swing, mas de uma maneira discreta para o britrock feito pela banda.
O último dos cinco é David Guilmor. Esse é exemplo de virtuose a serviço do rock e da boa música. É bem verdade que Pink Floyd fica bem chatinho depois do The Dark Side of the Moon (chatinho, não ruim). Mas imaginem que poderia ficar muito pior se esse moço resolvesse em toda música mostrar o que sabe? É engraçado, que ele ensinou e aprendeu com Syd Barret, que foi o primeiro a fazer da guitarra um uso não convencional. Guilmor é outro que consegue fazer lindas linhas melódicas com seu instrumento, sem se tornar brega.
Os músicos citados são bem diferentes uns dos outros. Talvez eu tenha deixados outros excelentes compositores-guitarristas de fora. Mas o importante é saber que esses homens com suas namoradas conseguiram de um jeito ou de outro me fazer compreender a música, em vez do músico.

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